quarta-feira, 3 de maio de 2017

Entrevista com Ruca Souza

Nessa semana tivemos o prazer de entrevistar a ex vocalista da banda Café Brasilis, Ruca Souza



01- Primeiramente, obrigado por nos conceder essa entrevista. “Eu não sei para onde estou indo, mas se quiser vir comigo, eu tenho um guarda-chuva”, essa música foi muito tocada desde quando fora lançada. Quem que na cena musical catarinense, não conhecia esse trecho? Para mim, foi uma das melhores da Café Brasilis junto com “Gostava de Vermelho”. Ambas as músicas atingiram uma gigante visibilidade, o que poderia dizer a respeito da composição dessas músicas, e das outras que complementaram o álbum “Gibberish” lançado em 2013?

Esse disco da Café Brasilis num geral foi muito surpreendente pra nós, o tamanho que ele tomou. É legal ver isso numa pergunta, aliás. Saber que não foi só a nossa percepção. Mas eles nos levou pra vários cantos de SC, assim como para todo Brasil e para o exterior. Foi graças a ele que toquei ano passado em Liverpool, no The Cavern Club. Um amigo nosso apresentou para o radialista Dan Lynch, que é de lá, e a partir daí ele gostou muito do som e surgiu a oportunidade de tocar na Inglaterra.

As composições do álbum Gibberish são bem mais leves e engraçadas, eu acho. E ele fala muito sobre amizade. “Guarda-chuva” foi uma música que eu criei indo para a faculdade em um dia de chuva. Eu estava de guarda-chuva e uma menina passou por mim correndo. Fiquei pensando por que não temos o hábito de dar carona quando está chovendo às pessoas sem guarda-chuva. E momentos depois passei por uma TV que exibia a tsunami no Japão (“no jornal passava algum desastre”), que na música foi um pouco também minha forma de  criticar o Jornalismo, curso que eu fazia, “algum desastre” como quem diz que é só isso que se exibe na TV, que é repetitivo. Em seguida comecei a lembrar dos meus amigos, de momentos com eles, de como amo meus amigos e gosto de tê-los por perto, de sempre ter um guarda-chuva psicológico, apoiar eles. Enfim.

E “Gostava de Vermelho” é uma história também dessa época de faculdade, é uma história sobre um amigo bem próximo com quem eu conversava muito sobre as nossas paixões e a gente praticamente vivia as paixonites juntos e também conversava muito sobre o papel do jornalismo na sociedade, sobre a próxima sociedade. Tudo misturado numa música só... Loucura.

02- Ainda a respeito da Café Brasilis. O grupo sempre representou muito bem a música de nosso estado, você, o Lenon e a Kika sempre mostraram humildade e tecnicamente faziam um som peculiar. Qual foi o principal motivo do recesso/fim da banda? E há probabilidade de voltarem aos palcos?

O principal motivo mesmo foi o desgaste. É muito complicado tocar música autoral. Assim como qualquer tipo de música temos todo o processo cansativo de ensaios, gravações, estar na estrada, o problema é que no fim de tudo não há uma recompensa de fato monetária, praticamente só gastamos – e muito! E também ao final da banda o Lenon e a Kika estavam em época de TCC, eles se formaram em música, logo depois de termos terminado uma turnê bem cansativa, então era muito estresse reunido. São várias coisas que juntas implodem uma banda. Resolvemos nos separar. Mas eles tocaram comigo no meu show de carreira solo no The Cavern Club, como banda de apoio.

Em relação a algum retorno, não temos expectativas, cada um acabou trilhando um caminho bem diferente na música e na carreira.

03- O lançamento do seu projeto solo impulsionou novos fãs e ingressou num caminho diferente da serenidade, brasilidade e MPB proposta por seu trabalho anterior, uma vez que deu lugar a pegadas mais agressivas e riffs mais rápidos, personificados no “rock n roll”. Como se desenvolveu essa abrupta mudança musical? O que a impulsionou seguir nessa viela mais pesada da música? E no setlist, ainda há canções da Café Brasilis?

Então, na verdade foi um retorno. Minha primeiríssima banda foi de punk rock, e também gosto muito de grunge. Foi uma busca pelas minhas próprias raízes. Mas ao vivo ainda toco sim músicas da Café Brasilis, porque até hoje elas são pedidas.

04- Em 2014 o álbum “Marte” foi difundido para todos. Nele, há resquícios mais crus, porém, levados a uma potencialidade eminente. A cada faixa das oito contidas no mesmo, ressalta-se uma diversidade sonora e pluralidade das letras, mesclando entre questões comportamentais e existenciais. Qual foi a visibilidade do disco perante aos fãs? E o alcance do material difundido?

Acredito que o álbum “Marte” alcançou um patamar mais profissional, uma evolução minha de fato como música, como instrumentista e compositora. Como se as coisas se estabelecessem melhor, estivessem mais sólidas. Senti que ele chegou mais rápido nas pessoas, ele é mais agressivo também, tem essa característica. Mas ao mesmo tempo surpreende, pois tem o lado espiritual, psicodélico, com canções que são o completo inverso umas das outras. O feedback que mais tenho é que de cara as pessoas se apaixonam pela música “Marte”, que é super pra cima, agitada, mas com o tempo são conquistadas por “Vento Branco”, que pessoalmente considero a música mais bonita que já fiz, mais sublime, sutil.

05- No mesmo ano de lançamento do primeiro trabalho, você concorreu ao Prêmio da Música Catarinense na categoria “Artista Revelação” juntamente com grandes nomes, como Vermelio, Circo Quebra Copos, Caraudácia e GPI, recebendo um número expressivo de votações podendo ficar na segunda colocação da classificação geral. O que toda essa visualidade pode proporcionar?

Foi surpreendente isso pra mim, lançar um álbum e já ter todo esse carinho das pessoas, todo esse “holofote” numa carreira solo que inicialmente me deixava muito insegura. E no meio de tanta gente incrível. Foi surreal... Até porque decidir pela carreira solo, ao invés de criar outra banda, foi um tiro no escuro. Eu estava bastante acostumada a ter o apoio do nome de uma banda. E então com essa mudança tudo aconteceu. Muita gente esperava que eu ganhasse esse prêmio, muita mesmo. Lembro de muita gente vir revoltada falar comigo por que eu não ganhei. Na votação popular fiquei em primeiro lugar, mas ainda havia o voto do júri, por isso a galera ficou revoltada mesmo.

Mas o maior prêmio foi esse carinho, esse cuidado das pessoas em reivindicar por mim, sabe? Porque elas acreditaram em mim, porque elas gostam do que eu faço. E isso me deixa completamente satisfeita, porque eu faço música pras pessoas. Meu objetivo é que de alguma forma minhas músicas possam ser úteis pra alguém, desde colocar um som legal pra limpar a casa até refletir sobre alguma coisa importante.

06- Em 2015, você apareceu novamente no maior prêmio da música barriga verde. Desta vez, indicada como melhor artista solo. As músicas “Fora” e a homônima “Marte” tiveram influências nessa escolha congratulada?

O convite veio quando fui lançar meu clipe “Fora” no programa Música SC, da TV BAND. O apresentador do programa Teco Padaratz se amarrou nas histórias, nas músicas, no meu trabalho. Nossa conversa foi muito legal, nos identificamos ali com os causos, as piadas de peixeiros (itajaienses, porque o Teco surfava bastante por aqui), as histórias sobre bandas... Tanto durante o programa como fora das câmeras, e ali ele fez o convite, depois da gravação. Acho que o Teco gostou especialmente dos riffs, da minha parte guitarrista, conversamos bastante sobre isso.

E o show foi sensacional. O que senti naquele dia nunca se repetiu antes nem depois. Uma adrenalina muito grande, e uma felicidade explosiva. Lembro da energia do público, foi sensacional, como se as pessoas estivessem mesmo perto e vibrando com a gente ali no palco.

E eu estava tão agitada depois da apresentação que por um momento esqueci o nome das pessoas, hahah. Foi como se toda a adrenalina tivesse esperado pra cair no sangue depois da apresentação, depois que tudo tivesse dado certo. Foi intenso!

07- Há pouco tempo, você divulgou um crowdfunding para o deslocamento do seu projeto solo para as terras britânicas, do The Cavern Club, em Liverpool, contudo não atingiu a meta necessária, mas você conseguiu a locomoção e pode se apresentar. Fale a respeito do show, da sensação e da receptividade inglesa.

Foi um show muito lindo. O público inglês é bem diferente, mais tímido, mas dava pra ouvir nas palmas a empolgação deles com a música. Meu show foi artisticamente bem diferente dos outros que rolavam no festival. Minhas músicas tem mais quebras, mais misturas de ritmo. O locutor inglês e meu amigo Dan Lynch estava lá e contou que “de início eles não estavam entendendo muito bem o que acontecia e depois se deixaram envolver”. Especialmente quando a gente tocou “Marte” em inglês eles curtiram muito, ficaram bem empolgados.

Fora o profissionalismo deles, foi o melhor palco que já toquei em toda minha vida em matéria de som. Os técnicos de som super gentis, mesmo com o tempo curto pra trocar as bandas eram muitíssimo solícitos com a gente, deixando o som o melhor possível e fazendo da nossa experiência também a melhor.

08- Para 2017, quais os novos projetos?

Por enquanto estou um pouco parada na música. Estou escrevendo um livro técnico sobre fotografia - hoje sou editora do maior portal de fotografia do Brasil. E em paralelo estou escrevendo outro livro, de poesias. Então o foco está nisso, que já é coisa pra caramba, praticamente “adeus finais de semana”, hahaha. Mas eu amo o que eu faço, então está ótimo.

Quero, assim que sobrar tempo, fazer um disco mais intimista, mais acústico.

09- Cinco bandas catarinenses.
Essa eu não vou responder, porque não quero dar preferência a nenhum amigo e depois dar briga... hahaha. Mas todas as bandas da BOI (Bandas Organizadas Independentes). Só tem gente foda lá, vale a pena conhecer. https://www.facebook.com/boirocksc/

10- Cinco bandas nacionais.
Legião Urbana, Pitty, Barão Vermelho, Far From Alaska, Fukai

11- Cinco bandas internacionais.
Band of Skulls, Jack White, Queens of The Stone Age, Nirvana, Royal Blood

12- Cena catarinense. O que pode dizer a respeito da união, dos festivais e do público.
Existe bastante união das bandas, muito se faz, mas infelizmente aqui em SC ainda não há público suficiente saindo de casa para conhecer coisa nova. Público cativo há, e agradeço muito por todos que vão curtir com a gente nos shows, porque estes são preciosos, mas tem muito mais gente que gosta de rock e não se arrisca, o que é uma pena.

13- Plataformas virtuais.
Email: ruca.souza@gmail.com

14- Agradeço encarecidamente o contato, a disponibilidade de tempo e as informações. A Urussanga Rock Music lhe dará sempre o suporte necessário para a difusão do seu material. Grato pela entrevista!


Eu que agradeço, Higor. E peço desculpas pela demora, mas queria um tempo livre de mente bem limpa para dar toda atenção a tua entrevista. Muito obrigada pela entrevista e pelo interesse por meu trabalho! Sucesso ao Urussanga Rock Music :)!

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