sábado, 10 de agosto de 2019

Entrevista com a banda Mandibulla, doom/stooner de São Paulo (SP)

Essa é a minha primeira participação no Urussunga Rock. A entrevista em si, sairia no meu fanzine (Nuna Zine), mas devido a tempo, e por ficar parada a entrevista, e com o convite do Guigo para colaborar, segue a entrevista dessa promissora banda da capital de SP, que consta com membros da velha guarda do underground.
1- A banda existe há mais de 10 anos e agora vocês começaram a trabalhar mais nela 
e na divulgação. Também houve reformulação de membros, contando com pessoas que
 tocaram em bandas como Street Bulldogs, Parental Advisory, Landscape, Bandanos... 
Contudo o som de vocês está diferente das bandas em que tocavam, com uma pegada de  
doom e stoner, e também uma pitada grunge. Conte-nos um pouco da trajetória da banda 
até hoje, e por que esse estilo de som?

Resposta:  Um grande salve a todos os leitor@s do Nuna zine. Nossa, que prazer sem fim 
estar mais uma vez respondendo a uma entrevista para um fanzine. É onde tudo começou
 para mim, foi minha porta de entrada para o underground, bandas e tudo mais que vivi desde 
1988, quando comecei a me corresponder por carta com as pessoas. Esta é a primeira 
entrevista que respondo em nome do Mandibulla, e é um prazer receber este convite do meu
amigo de muitos anos, Fábio, do No Influence. Parabéns pelo trabalho maravilhoso. 
Como eu já falei, eu sempre gosto de mencionar em entrevistas os fanzines, que mostram 
como a cena está pensando. Mas ao que parece, o que costumávamos chamar de cena nesse 
contexto que conhecemos está deixando esse aspecto de leitura de zines de lado, ou não 
dando mais tanta importância para isso. Mas vamos lá, contar a história do Mandibulla. 
Em 2007 e 2008, o Bandanos estava na sua fase áurea, tínhamos feito a tour do Chile, que 
tinha sido um marco na história da banda, e estávamos prontos para embarcar na tour 
europeia, que foi em 2009. Eu cantava numa banda de crossover... e sim: eu escutava muito 
 thrash e crossover, principalmente as bandas da mesma geração que a nossa, 
(eu sempre adorei conhecer novas bandas... de estar ligado no que rola no meu rolê). 
Mas claro, você não quer escutar somente o que você toca o tempo todo, quase todos os 
finais de semana, e eu escutava muitas bandas de stoner da nova geração e bandas 
clássicas também do estilo, como a fase pós Deliverance do Corrosion of Conformity. 
Eu escutei basicamente todos os dias, desde que saiu em 2005 o Arms of God, do COC, 
junto com o Down III, que havia saído no ano anterior, em 2007. Eu estava curtindo muito 
bandas assim e escutava também bandas clássicas, como Sabbath, Witchfinder Generals 
e muito Kyuss, Soundgarden e, claro, Alice in Chains e Faith no More. E meu estilo favorito: 
Death Metal. Cara... se você é rockeiro mesmo, você sempre tá curtindo som. Mas aí eu 
comecei a me interessar muito por essa onda toda que a galera já estava rotulando de 
cena stoner, então comecei a procurar mais e mais bandas assim, e a conhecer cada vez 
mais bandas deste cenário. Pensei: “Bem... eu quero montar uma banda de stoner”, e na 
época passava longe de mim a ideia de querer ser o vocalista, eu estava afim de voltar a tocar
 baixo, que também era meu instrumento quando eu entrei para o Bandanos. Havia muitos
 anos que eu não subia no palco como baixista. Falei com amigo que eu sabia que curtia 
muito este tipo de som, inclusive tinha me mostrado muitas bandas deste estilo que eu não 
conhecia, o Ricardo Monticelli. Ele trampava na Galeria e eu passava na loja pra gente trocar 
ideia de som nos finais de semana. Trocamos ideia por rede social, não lembro se já era 
facebook ou Myspace, e eu chamei o Fábio do Paura para o vocal, ele topou e foi vocalista 
da banda nesta fase, tem até uns vídeos no Youtube com ele ensaiando conosco. O batera 
sempre foi o Helder Tiso, mas só que tem um detalhe. Eu achei o Helder no Facebook por 
acaso, havia muitos anos que eu não falava com ele. Na verdade mais de 10 anos, pois 
havia tocado com ele em 1999 no Stand of Living, uma banda de hardcore em que eu era o 
baixista, e depois saí. Mas ele com certeza em toda minha vida foi o melhor baterista com
 quem eu já toquei. Eu estava procurando um batera.  Então eu disse pra ele: “Helder, eu sei 
que você nunca tocou devagar na vida, mas você acha que você consegue tocar numa banda
 tipo Crowbar misturadocom Melvins?”. Ele: “Nossa... nunca pensei nisso, mas posso tentar”.
 Eu mostrei pra ele algumas outras bandas como referência, e ele pediu um mês para estudar.
 Passaram os 30 dias, começamos a tocar, conseguimos enfim gravar e aqui estamos. 
Ou seja, ele tocou primeiro no Mandibulla, depois no Bandanos. O Lobinho, então batera do
 Bandanos, havia anunciado que ia sair da banda. Então fizemos alguns shows com o Barata,
 do Test. Fizemos o convite para o Helder tocar no Bandanos, e ele topou. Acabou virando 
banda principal e com ele gravamos o Nobody Brings My Coffin Until I Die e o Metal das Ruas, ao vivo. Com 
isso o Mandibulla durante esse período até 2017 ficou meio de lado, mas não esquecido, pois
 ensaiamos com a banda em todos os anos em que dávamos mais atenção ao Bandanos. 
Tivemos muitas formações. Gente que tocou e saiu... guitarristas e baixistas... então ficamos
 muito tempo sem vocal até que há 3 anos, aproximadamente, eu disse para o Helder:
“Cara... ninguém quer fazer vocal cantado nesse tipo de som... eu acho que vou tentar. Eu vou
 começar a fazer umas aulas de técnica vocal e tal. Aprender usar melhor a minha voz”. E foi 
assim. Aí não lembro o ano exato, mas também por essa época o Felipe Knoller e eu nos 
encontramos numa situação de trabalho e trocamos ideia sobre bandas. Ele tinha o wallpaper 
no celular do Integrity e eu disse: “Porra! Vamos montar uma banda assim?”. Ele: “Bora! 
Mas misturado com Entombed”. Aí eu disse: Nooosssaaaaaa... Perfeito!”. Montamos o Krypta 
para ser um death metal tosco, mas não vingou. Quem sabe uma hora voltamos. Então chamei
 ele pro Mandibulla, para ser guitarra junto com o Thiago “Mr. Mil Bandas” (Live by The Fist, 
Deal Cards, Inner Strugle, xRisingx, Harbor Academy, MACE). O Thiago fez 3 músicas das 6 
que gravamos com o Mandibulla no Bleedind Black. Quando o Felipe entrou, ele saiu. Mas pro
 som que imaginávamos no Mandibulla, sempre houve a necessidade de duas guitas. Aí nosso
 menino prodígio Ricardo Siqueira apareceu pra dar aquele brilho que sempre quisemos como
 lead guitar. Indicação do guita do Bandanos, que sabia do Mandibulla, trocava ideia de som
 com o Ricardo... então o indicou pra fazer um teste pra ver se encaixava no Mandibulla, já que
 o Ricardo ama Alice in Chains. Ficou lindo de cara: Felipe nas bases e Ricardo nos solos! 
Fome com a vontade de comer. Tivemos vários baixistas depois que eu deixei o baixo pra 
cantar... no final quem subiu no palco com a banda para marcar o recomeço das atividades e 
começar a divulgar o disco foi o Dráuzio, que era parceiro desde a época do Street Bulldogs,
 que já não tocava há muito tempo. Mas eu tinha o contato dele devido a trampo, e ele já havia
 me mostrado a vontade de querer voltar a tocar. Depois a vida o fez ter que deixar a banda 
para mudar e viver fora do Brasil... Então o Felipe chamou o André Doom Beer, atual baixista...
 que já tocou com a banda no Obscuro Fest. O Helder, único batera da banda até então, 
também teve que se mudar de São Paulo. Terminou de gravar o disco, participou da mixagem 
e da masterização, gravou os pianos, teclados, violinos e violoncelos melódicos e sinistros
 que estão presentes no disco e deixou as baquetas do Mandibulla. Mas mesmo de longe ele 
acompanha a banda, dá ideias de levadas pros novos riffs que Felipe e Ricardo já estão 
fazendo pro segundo disco... e agora estamos ainda à procura de um batera que mantenha o 
nível elevado das levadas. Até então o Lucas tocou com a gente no Obscuro Fest, mas 
estávamos sentindo que algo estava faltando... por isso estamos na busca de um novo batera. 
Sobre o som é aquela regra: quem entra na banda precisa saber de duas coisas. Alice in 
Chains, Black Sabbath e Faith no More são entidades mágicas e que devem ser adoradas 
 sempre. De resto... tudo que for lento pode ser usado de referência. E aí saiu isso aí que vocês
 podem conferir no primeiro disco.

2 – Bom, o Cris Mafra é o vocal da banda, e é impossível não o ligar à sua antiga banda, 
bem conhecida no meio underground, o Bandanos. Como foi o término e o por que 
terminaram as atividades com a Bandanos?

Resposta: Cara, eu penso que nossas bandas (acho que quem tem banda vai entender
 exatamente o que eu vou dizer) são a trilha sonora do que você vive. Uma banda existe pela 
ligação entre todos seus integrantes em prol de algo comum. Um disco nasce assim, é uma 
gestação pra banda. Tipo um filho com as partes de cada um. Você praticamente funde um 
pedaço de cada integrante ao do outro e cria algo que tem vida própria. Então acho que posso 
dizer que esta então já não era mais a música que eu tinha que continuar a fazer. E não era 
mais ali que eu devia estar. Nossas energias não estavam mais vibrando numa mesma 
sintonia que permitia que continuássemos juntos. Nós lançamos o Nobody Brings em 2016 e 
fizemos mais de 90 shows divulgando o disco em todo Brasil. São muitas e muitas horas de 
convivência nas mais diversas situações, boas e ruins. E tempo demais passando juntos, 
acaba desgastando. Já não tínhamos mais toda aquela sintonia, e nossa próxima cartada que
 seria começar a compor o 3o álbum nunca saia do papel. Pois toda hora tinha mais e mais 
shows. Eu particularmente não estava conseguindo dar tudo o que queria também, como 
sempre fiz, com toda energia necessária nos deslocamentos e no palco. Mas o disco eu 
estava afim de fazer. Estava mesmo! Já tinha as 13 letras que seriam usadas no disco 
prontas... guardadas para começar a encaixar nas bases. Não sei dos outros vocalistas, mas 
eu não preciso de música para fazer letra, eu tenho uma ideia, pego um papel, agora em 
nossos tempos o bloco de notas do celular, e já anoto... depois desenvolvo. Eu estava 
negociando a capa já tinha alguns meses com o Ed Repka para desenhar e já estava tudo 
meio encaminhado. Mas na vida as coisas são exatamente como elas devem ser. A banda 
anunciou encerramento das atividades em outubro de 2017, sem querer dar motivo ou 
justificativa. Ela apenas parou e lhe asseguro, hoje, com caráter perpétuo.

3 – As letras da banda foram escritas também no começo da banda e giram em torno da obra 
de Edgar Allan Poe e HP Lovercraft. Foi uma escolha proposital para deixar um pouco obscuro
 a atmosfera sonora da banda? Como surgiu a ideia e inspiração por esses autores?

Resposta: Bem, sobre as letras... Como já citado, eu havia decidido ser vocalista da banda e 
comecei a estudar técnica vocal para aprender a usar melhor a voz, então fiquei pensando 
mais ainda nas letras. No Bandanos eu “cantava” em português, e tínhamos uma ou outra letra
 em inglês. Mas grande coisa porque não dava pra entender porra nenhuma. No Mandibulla 
cantar algo assim em português eu achava que não iria soar legal e fiquei tentando escrever 
algo para a banda em inglês. Mas aquela coisa... eu falo inglês, mas meu vocabulário é bem 
limitado para eu conseguir me expressar em inglês nessa atmosfera de som do Mandibulla.
 “Vai ser foda..”, pensei. Mas os ensaios foram rolando e eu já na posição de vocalista comecei
 encaixar só as melodias na cabeça, sem letra. Eu tenho hábito de comprar aqueles minilivros
 da LM pocket que são vendidos nas bancas... quando passo e vejo algum interessante, 
compro. E na ocasião comprei um do Lovecraft bem no dia que estava escutando um ensaio 
que havíamos gravado no dia anterior. Então pensei: “Caramba! Esse som que fizemos ontem
 é tipo trilha sonora de um filme do Lovecraft!”. Mas aí uma parada meio bizarra aconteceu. 
Dias depois eu tive um pesadelo, onde o próprio Lovecraft me entregava um livro... tipo o 
Necronomicon... e disse “Use as minhas palavras nas suas músicas”, e junto dele estava o 
Edagard Allan Poe. O sonho era bizarro, tipo filme de horror, mas no contexto geral foi isso. 
Acordei e fui pesquisar sobre poemas de ambos e achei a Dream Within a Dream, que é um 
poema dele. Achei mais bizarro ainda. Outras bandas já se inspiraram e têm até bandas com 
nomes de criaturas do Lovecraft... em nome de discos etc. Aí minha ideia ficou mais pirada 
ainda. Pensei: “Cara, imagine um split do Lovecraft com o Edgard Allan Poe?”. Então fui 
checar a poesia do Poe que eu conhecia e que achava foda... Logo lembrei de Dream Within 
a Dream, que também usamos de inspiração para outro som. Tem com certeza tudo haver 
ambos os autores que são do século XVIII e mestres do gênero horror. Casam perfeitamente 
com essa atmosfera fúnebre que o doom metal tem por essência. E o clamor das hordas do 
apocalipse em direção à terra. E estes dois autores melhores que ninguém são precisos em 
descrever o ser humano como objeto criador do horror que vem de dentro do nosso próprio ser.
 Eles praticamente escreveram sobre tudo que assusta as pessoas há muitos séculos antes de
 qualquer um... e influenciaram dezenas de diretores e cineastas, assim como muitas e muitas 
bandas, músicos e outros artistas em suas obras. Então eu pensei: “É isso! Esse disco vai ser
 assim. Vamos criar dessa forma.”. Não sei se isso será um padrão, se farei novamente daqui 
em diante, mas para o Bleeding Black a temática de nossas letras tomou emprestada o eu 
lírico desses dois renomados autores, transformados em música, ou vice e versa. Escutem,
 leiam, sintam e digam se concordam com o que eu estou falando.

4- O primeiro lançamento de vocês teve a participação do Jack Endino para masterizar o 
álbum, que, nada  mais nada menos, fez o Nirvana e o Alice in Chains, entre outros. Como 
surgiu esse contato entre vocês e essa oportunidade?

Resposta: Cara, o lance do Endino foi totalmente sem querer e por acaso, mas deu certo no 
final. De jeito nenhum escolhemos o Endino pra ser tipo uma jogada comercial. Nem havíamos pensado em masterizar lá fora. Mas o Guilherme, que estava gravando nosso disco em seu estúdio, o Estudio Kaum – inclusive quero registrar que fez um trabalho maravilhoso e indico a qualquer um que estiver procurando um bom estúdio para gravar em São Paulo – nos disse que ele só iria gravar, mas não iria masterizar. Pois pra ele o processo de mixagem deixa o ouvido viciado para a máster, pois você escuta muitas e muitas vezes os sons, não conseguindo depois dar o melhor de si na pasteurização. Olha só que profissional o cara! Isso nos obrigou a pensar em alguém pra fazer. Aí o Felipe disse: “Poxa, devíamos fazer com alguém de fora, o Institution fez e foi foda, deu bastante diferença”. Na hora eu brinquei com ele: “Claro, vou falar com Jack Endino e pedir pra ele deixar igual ao Soundgarden”. Mas aí eu lembrei: “Poxa, ele gravou um disco do The Accused”, e eu graças ao Bandanos acabei me tornando amigo do Blaine e do Maggot Brain, do Accused, pelo Facebook. Escrevi para ambos e perguntei se eles podiam falar com ele a respeito disso. Também me lembrei que o Water Rats havia gravado com eles lá em Seattle, pois conversamos muito disso com eles... sobre o Endino e como ele tinha ideias muito loucas para gravar quando tocamos juntos em Curitiba. Pedi para o Mozine da Laja se ele poderia falar com os Water Rats e pedir o contato. Cara... era pra ser mesmo o cara, pois ambos me passaram o contato dele, o Blaine do Accused até o e-mail pessoal dele me deu. Assim como consegui negociar um valor mais acessível para nós que ganhamos em real pra pagar em dólar... e rapidamente ele respondeu dizendo que estava remasterizando o Green River e que depois faria uma viagem para o Chile, e que na sequência voltaríamos a nos falar. É essa a história.

5- Vocês já estão um bom tempo vinculados ao underground, passando por diversas bandas, 
produzindo shows, atuando em coletivos, enfim... de quando começaram até hoje, que 
perspectivas vocês têm com o underground no Brasil? Em relação com o que viveram no 
passado e com o agora, quais pontos vocês colocam como positivos e negativos? Visto que o 
 underground é uma contracultura, uma resistência às normas e a padrões sociais, como vocês
 veem essa crescente onda conservadora e fascista no underground?

Resposta: Sim, realmente. Eu estou envolvido diretamente com o cenário undergound 
nacional sem nunca ter me ausentado e sempre em atividade com trabalhos diversos voltado 
à cena. Já fiz zines na década de 90, muitos deles, inclusive é assim que nos conhecemos, se
 não me engano... me correspondia com você na época do Tribal Screams, que foi um fanzine 
voltado à cena hardcore de 1996 até 1997, se não me engano. Já organizei dezenas de 
festivais e shows de pequeno porte nas cidades em que morei (Itapevi e São Roque), já tive 
distro e selo, e toquei em diversas bandas de vários estilos diferentes durante todo esse 
tempo, sendo a minha primeira banda o Youth Against the Conformity, com membros do 
Dischord crust, de São Roque. Eu nunca me ausentei do undergound. Eu não sou um cara 
inserido hoje tanto quanto eu era antes, e raramente vou a shows devido a meu trabalho com 
minha marca de lifestyle, a Trüst Wear, que não me deixa muito tempo de sobra. Mas quando 
estava na estrada com o Bandanos, acompanhamos de perto o processo de “emburralização” 
do cenário, como você disse, a proliferação de ideias equivocadas em todos os lugares do 
Brasil, como um reflexo direto do momento político pelo qual passamos. Um tempo de
 completa distorção e analfabetismo político, em que, na minha opinião, resultado da falta de 
formação necessária nas escolas que foi deixada de lado, como filosofia, sociologia, história, 
ciência política que a pelo menos há uns 20 anos não são discutidas como deveriam nas 
escolas... deixando a geração atual desinformada, mesmo em tempos de liberdade de 
comunicação. Temos em geral um povo desinformado e fácil de manipular. Pois não pensa, 
não argumenta. Acredita em tudo que é fake news. Era algo que conversávamos muito no 
Bandanos, pois nosso baterista, o Helder, se formou na Faculdade de filosofia, Letras e 
Ciências Humanas da USP, e nos contava como seus colegas reclamavam das situações nas
 escolas, sobre os assuntos ligados à politização... sobre a dificuldade dos alunos que se 
 interessam, mas que não encontravam base nas escolas para entenderem assuntos mais 
complexos. Eu dei aula durante 4 anos no Ensino Público, na rede municipal de Itapevi, de 
geopolítica e história. Na época, o tema em alta era globalização... e me lembro da grande 
dificuldade de uns e do espanto de outros para enxergar as mudanças gigantescas que 
estavam por vir em todo mundo... eles não acreditavam ser possível chegarmos onde 
chegamos, talvez nem se dão conta disso ainda. Povo mal preparado, que teve seu direito 
negligenciado pelo descaso e decadência do ensino e do Estado, em um país que tem uma 
divida interna grotescamente grande, ao mesmo tempo que tem arrecadação gigantesca e 
muito mais alta do que em países prósperos... tem seu dinheiro roubado em todas instâncias 
da administração pública... Vivemos em um país em que o povo não sabe muito de si porque 
não aprendeu na escola, escolhem mal seus governantes, que se aproveitam da mídia e da 
manipulação dos fatos para criarem um frenesi de clamor pelo conservadorismo e pela 
postura velada de direita como solução... criando um passado imaginário de um pais próspero 
que nunca existiu. Eu escrevi exatamente sobre isso na letra de Fato ou Mentira, que está no 
Nobody Brings... de como nos ensinam a mentira que convém para terem no presente, com o 
resultado que eles desejam. Cabe a nós, os ditos acordados da matrix, que conseguem 
enxergar o que realmente está acontecendo, trazer mais para junto de nós essas pessoas, 
com toda e qualquer atividade que possa informar e fomentar a discussão, para surgimento 
do senso crítico mais evoluído. Difícil. Muito difícil, mas é preciso pensar globalmente e agir 
localmente. Isso é o D.I.Y., e pode ser aplicado em tudo.

6 – Como foi a produção do primeiro álbum da banda, o Bleeding Black? Quais são as 
perspectivas da banda em relação a ele e o que podemos esperar desse álbum e da banda?

Resposta: Nosso primeiro álbum, Bleedind Black, foi gravado e mixado no Estúdio Kaum, 
em São Paulo, com o Guilherme e com toda a banda participando, durante o final de 2017 e 
começo de 2018. Não tivemos pressa. Tivemos a preocupação de acertar cada detalhe para
que, finalmente, depois de todas as dificuldades de formação da banda – de finalmente termos
 um line-up de excelência, mesmo sem baixista na época da gravação (por isso o Felipe 
gravou todos os baixos no disco) – registrássemos tudo aquilo que idealizávamos. Tudo 
aconteceu numa boa... sem estresse nenhum... curtimos cada segundo no estúdio. O Helder 
até providenciou um prato que, segundo ele, tinha que fazer parte do set de pratos para a 
gravação... o timbre perfeito, segundo ele, pra soar como deveria soar um prato de ataque e 
condução nas músicas. Coisa de baterista. Ele gravou todas as bateras em 3 horas e meia! 
Um absurdo! Depois o Felipe gravou as bases, explorando as sonoridades de um Marshall 
JCM 900 e de um Orange. Que peso nas bases! Depois o Ricardo gravou os solos. Muita 
técnica e harmonia nas notas! E tem uma história da hora: o Ricardo, por ser muito técnico, 
teve dificuldade em fazer um efeito que se dá ao arrastar a lateral da palheta nas cordas da 
guita... um recurso bem utilizado no hardcore. Perdendo a paciência, o Helder pegou a 
guitarra e gravou de primeira. É muito Agnostic Front na veia (risos)! Depois gravamos o baixo. 
Felipe prodígio mandou bem demais. Ele não queria, mas o obrigamos, hehehe, se não o 
Helder ia querer gravar... e aí... já viu... ia ficar muito NYHC. Por fim chegou a hora de gravar 
 os vocais. Parte mais trabalhosa, porque meu vocal já possui um overdrive natural, cultivado 
por anos no Bandanos, que precisava ser contido no Mandibulla. Antes de terminar a gravação
 dos vocais o Guilherme já ia dando um tapa nos sons, com toda banda participando com suas 
ideias de sonoridade para os instrumentos gravados. Vale a ressalva de que todo o processo 
de composição, gravação, mixagem e masterização foi extremamente democrático no 
Mandibulla. Todos participaram e palpitaram, sem melindres. Enquanto o Guilherme ia 
acertando os detalhes da mixagem, o Helder, que já tinha se mudado de Sampa, ia compondo
 e gravando em casa a intro do disco, e os pianos, violinos e violoncelos pras músicas. Com 
tudo mixado e pronto, mandamos os sons pro Jack Endino masterizar... e foi assustadora logo 
a primeira versão que ele nos mandou! Um ajuste aqui, outro ali... disco pronto! Já estávamos
 quase em outubro de 2018... então escolhemos a noite de Halloween pra lançar o disco nas 
mais diversas plataformas digitais. Agora é fazer o máximo de shows que pudermos pra 
divulgar a banda e o disco. Temos ideia de conseguir um selo que lance material físico, 
principalmente em vinil. Já temos a arte, as músicas... falta o incentivo... sabe como é... porque
 bancamos tudo dos nossos bolsos, que agora estão vazios.

7 – Ainda tocando em questões políticas, golpe após golpe contra nossos direitos, dá a 
entender que a classe política não tem mais medo da população. Cada vez mais trabalham 
em prol do neoliberalismo, onde atuam apenas para eles e para o poder empresarial que os 
financia. Vocês estiveram envolvidos ativamente em grupos ligados também à música, e com 
ativismo político também. No início do ano 2000, lembro de muitas manifestações mundiais
contra a OMC, ALCA... e que chegaram fortes aqui no Brasil, interações com grupos do MST, 
Zapatistas... e isso tudo trazia uma discussão boa no underground. Dos tempos remotos até 
os atuais dias, vocês acreditam que é possível uma mudança disso tudo que está aí, existe 
uma possibilidade de revolucionar essa situação em que nos encontramos? Um outro mundo 
ainda é possível?

Resposta: Estamos talvez no pior momento político e econômico de nossa história desde a 
modernização do país, a partir de 1930, com a era Vargas. Temos um governo protofascista 
eleito após uma sucessão de golpes políticos, jurídicos e midiáticos, com suporte de um 
alinhamento do capital internacional e do imperialismo que nunca adormeceu, e que vem 
desde 2013 preparando o terreno para a entrega total do país ao Neoliberalismo. Bolsonaro é 
apenas um espasmo doído de todo esse processo que tem como síntese a negação da política.
 Contudo, é preciso ter clareza também para entendermos que a maior parte desse cenário foi 
construído dentro dos 13 anos de governo do PT. O partido dos trabalhadores, ao dar 
segmento ao receituário neoliberal do FHC, mas travestido de um certo Liberalismo Social,
 apenas reproduzindo a lógica do capitalismo que nos coloca numa condição periférica e 
atrasada, aprofundando a disparidade em relação aos países mais desenvolvidos do mundo.
 Foram abandonadas as bandeiras históricas do trabalhismo pós Vargas, de um projeto 
nacional de desenvolvimento e emancipação do povo, promovendo um nacional 
desenvolvimentismo às avessas, ou seja, nos desindustrializamos como nunca na história do
 capitalismo mundial, nos tornando novamente um país exportador de commodities, ao passo 
em que se privilegiou o mercado financeiro, causando a maior concentração bancária do 
mundo, onde 87% de todas as movimentações financeiras estão nas mãos de apenas 5
 bancos, sendo dois destes bancos públicos. Estrategicamente o PT não foi capaz de qualquer
 mudança estrutural, e mesmo as políticas de proteção social não foram institucionalizadas, 
bem como não se importou com a formação política de quem se beneficiou, abrindo espaço 
para que mesmo estes fossem cooptados pelo discurso e as narrativas da direita. O PT
 preferiu garantir sua governabilidade não nos movimentos sociais, e sim no mercado e nos 
arranjos políticos de um fisiologismo cretino-parlamentar, em nome de um projeto de poder 
hegemônico em torno da figura do Lula, que jamais permitiu que qualquer outra alternativa 
progressista crescesse. Protagonizaram uma farsa eleitoreira com Lula candidato na tentativa
 de eleger mais um poste, inclusive se valendo de táticas nada leais a outros candidatos do 
mesmo campo da centro-esquerda. Há também uma outra questão que a esquerda como um
 todo precisa perceber. O identitarismo como bandeira política foi um dos responsáveis pela
eleição do Bolsonaro. As pautas identitárias são legítimas, é claro, mas quando são lançadas
 ao jogo da democracia liberal torna a esquerda altamente vulnerável num contexto de guerra
 híbrida que se aproveita do moralismo religioso, da cultura machista, homofóbica e racista do
 povo, eclipsando aquilo que deveria ser a verdadeira pauta da esquerda em todo o mundo, 
mas em especial aqui: a luta de classes, a questão de ricos contra pobres. Se a agenda de
 uma eleição fosse expondo claramente essa questão, pela nossa condição social, nós, o povo
 pobre, conseguiríamos perceber a lógica em que estamos inseridos, e dificilmente a esquerda
 perderia uma eleição. Mas quando decide insistir nas pautas identitárias, vai ser presa fácil 
para a guerra híbrida da direita. A esquerda precisa escolher se quer voltar a vencer as 
eleições, ou apenas se colocar como moralmente superior à direita, por defender bandeiras 
identitárias. Nesse sentido, vejo que uma mudança só poderá ser possível passando pela 
própria mudança da esquerda de se fazer política. Temos aí 3 meses passados desde as
 eleições, e o PT não foi sequer capaz de fazer uma mínima autocrítica, e pior, já se articula 
junto aos seus satélites menores, num claro movimento que só tem por objetivo preservar sua 
liderança hegemônica no campo da esquerda. Então, um outro mundo, um outro país, só será
 possível com uma outra esquerda. Fora disso, continuaremos nos aprofundando mais e mais
nesse obscurantismo que representa a parte política e ideológica do governo Bolsonaro, ou 
de quem o suceda, e à brutalidade do neoliberalismo, que tem um único objetivo: a rapina de
 nossas riquezas.

8 – Agradeço imensamente pelo tempo em responder essas questões, torcemos muito para 
que tudo continue dando certo com a Mandibulla. Fica então aí um espaço para darem um 
recado final.

Resposta: É isso aí! Obrigado pelo espaço para divulgar um pouco das nossas ideias... um 
abraço e vida longa aos zines, especialmente ao zine Nuna
, e a todos que gostam de som pesado! Apoiem a cena local, comuniquem-se com as bandas,
 estreitem as relações, se respeitem e vamo que vamo!



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